{"id":1844,"date":"2014-10-24T16:57:08","date_gmt":"2014-10-24T16:57:08","guid":{"rendered":"http:\/\/pedrorezende.com\/blogsonialins\/?p=1844"},"modified":"2014-10-29T12:05:15","modified_gmt":"2014-10-29T12:05:15","slug":"a-critica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sonialins.com.br\/blog\/a-critica\/","title":{"rendered":"A cr\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p>O artista pl\u00e1stico Luciano Figueiredo chegara de uma temporada em Londres, quando seu amigo Waly Salom\u00e3o lhe falou com entusiasmo sobre Sonia Lins. Waly, ent\u00e3o dono da editora Pedra Q Ronca, foi o primeiro a se interessar por \u201cBaticum\u201d, de Sonia, sobre a inf\u00e2ncia e juventude em Belo Horizonte, sua terra natal, e acabou por public\u00e1-lo em 1978.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, Luciano Figueiredo passou a acompanhar a produ\u00e7\u00e3o de Sonia Lins, tanto na literatura, quanto nas artes visuais. No texto abaixo, escrito especialmente para o lan\u00e7amento do Museu Virtual Sonia Lins, ele faz considera\u00e7\u00f5es sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o e a import\u00e2ncia da artista para o panorama da arte contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p><strong><em>Sonia Lins: gesta\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><em>A arte \u00e9 uma atividade humana que n\u00e3o segue normas convencionais, e os artistas, em sua grande maioria, constroem suas obras e trajet\u00f3rias de maneiras afins ou imprevis\u00edveis uns aos outros; cada um com suas inclina\u00e7\u00f5es, predile\u00e7\u00f5es e formas de inicia\u00e7\u00e3o acad\u00eamicas ou n\u00e3o. Entretanto, t\u00eam muitas coisas em comum que fazem parte do que ir\u00e1 lhes permitir carreira e reconhecimento: escolha de t\u00e9cnicas, materiais de trabalho, primeiros passos, exerc\u00edcios de ateli\u00ea, exposi\u00e7\u00f5es, apoio da cr\u00edtica de arte, imprensa, galerias, mercado, competi\u00e7\u00f5es em sal\u00f5es, bienais, institui\u00e7\u00f5es, profissionaliza\u00e7\u00e3o, etc. Tudo isso para conseguir afirmar a express\u00e3o individual no chamado \u201clugar ao sol\u201d ou mesmo uma proximidade a ele. Assim, na maioria das vezes, acontece a forma\u00e7\u00e3o de uma carreira art\u00edstica em que a luta pela express\u00e3o \u00e9 travada em inevit\u00e1vel embate que o artista enfrenta consigo mesmo, com a sociedade e com a cultura em que vive. O artista, se quiser, pode tudo aprender por si pr\u00f3prio e em contato com obras com as quais se identifica e que admira.<\/em><\/p>\n<p><em>A obra de arte n\u00e3o \u00e9 um objeto utilit\u00e1rio e nem tem lugar no mundo. O artista n\u00e3o possui um papel ou fun\u00e7\u00e3o espec\u00edfica no mundo, mas, paradoxalmente n\u00e3o pode dele prescindir.<\/em><\/p>\n<p><em>O reconhecimento p\u00fablico, como sabemos, \u00e9 o que legitima para a posteridade a aventura da express\u00e3o espiritual de qualquer artista. Alguns podem se tornar c\u00e9lebres em vida, por\u00e9m, s\u00f3 com o passar do tempo e quando institucionalizadas suas obras \u2013 de todos os estilos e tend\u00eancias \u2013, \u00e9 que s\u00e3o acolhidos em museus e ingressam na hist\u00f3ria da arte.<\/em><\/p>\n<p><em>Para entendermos a forma de express\u00e3o de uma artista como Sonia Lins devemos inicialmente salientar que a artista construiu sua obra liter\u00e1ria e pl\u00e1stica de maneira sui generis e aos poucos, pois que em sua juventude em Minas Gerais nunca manifestou qualquer inclina\u00e7\u00e3o para as artes visuais, mas, desde cedo foi uma leitora dos cl\u00e1ssicos e interessava-lhe a literatura, o casamento, a fam\u00edlia, seus filhos S\u00e9rgio e Kiko e a vida rural.<\/em><\/p>\n<p><em>Somente em 1950, durante sua estada em Paris com a irm\u00e3 Lygia Clark, teve despertada, sem pretens\u00f5es, a curiosidade de desenhar e colorir em folhas de papel. Ganha elogios do artista e professor Dobrinsky que, surpreso com uma s\u00e9rie de desenhos de Sonia, decide inclu\u00ed-los em uma exposi\u00e7\u00e3o de novos artistas. Nem por isso, ela d\u00e1 seguimento \u00e0 atividade de pintora e segue sua vida sempre rica em outras viv\u00eancias e interesses: carpe diem, ousamos ainda evocar a famosa express\u00e3o do poeta e fil\u00f3sofo de Roma, Hor\u00e1cio, que quer dizer \u201caproveitar o dia\u201d, \u201cdesfrutar da vida o m\u00e1ximo poss\u00edvel\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>Sonia Lins escrevia para si e n\u00e3o mostrava aos seus muitos amigos intelectuais e figuras importantes do grand monde ou da chamada intelligentsia do Rio de Janeiro da \u00e9poca. Circulava entre artistas e pol\u00edticos sem demonstrar qualquer ambi\u00e7\u00e3o em publicar o que solitariamente escrevia e guardava. Apenas a partir de 1959 seus textos come\u00e7am a ser publicados no famoso Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, e ali j\u00e1 se percebia o esp\u00edrito e a forma de escrita que lhe interessava: prosa e verso livre. Publica tamb\u00e9m alguns poemas (em portugu\u00eas mesmo) na revista de arte Signals Bulletin, editada pelo cr\u00edtico Guy Brett para a Signals Gallery de Londres que j\u00e1 na \u00e9poca acolhia nomes importantes da vanguarda brasileira como S\u00e9rgio Camargo, Lygia Clark, H\u00e9lio Oiticica e Mira Schendel. Como podemos constatar o d\u00e9but de Sonia Lins se d\u00e1 no epicentro do movimento de vanguarda brasileiro e em seguida surge num jornal tamb\u00e9m de vanguarda na Inglaterra.<\/em><\/p>\n<p><em>O Brasil viveu nesse per\u00edodo seu mais acirrado clima vanguardista nas c\u00e9lebres pol\u00eamicas do concretismo em S\u00e3o Paulo e do neoconcretismo do Rio de Janeiro. Fica evidente no estilo e no t\u00edtulo de seu primeiro texto no suplemento do Jornal do Brasil \u2013 \u201cProsa concreta\u201d \u2013, que Sonia n\u00e3o s\u00f3 participava da novidade art\u00edstica que ali emergia mas tamb\u00e9m a acompanhava.<\/em><\/p>\n<p><em>Podemos, ent\u00e3o, afirmar que a origem de tudo que veio a produzir e publicar cerca de 20 anos depois est\u00e1 na sua rela\u00e7\u00e3o com o texto, com a palavra e com os escritos que engavetara durante muito tempo e que s\u00f3 seriam publicados pela editora Pedra Q Ronca do poeta Waly Salom\u00e3o em 1978. Neles armazenara seus sentimentos, suas viv\u00eancias de inf\u00e2ncia e juventude em Belo Horizonte. Tudo de uma \u00e9poca pessoal resumia-se de forma criativamente modificada no livro que intitulou Baticum e que formalmente tem uma diagrama\u00e7\u00e3o muito ousada por ela mesma concebida, na qual se percebe o quanto os experimentos espaciais com o texto j\u00e1 eram absorvidos e transformados pela autora.<\/em><\/p>\n<p><em>Baticum recebe nada menos que a aprecia\u00e7\u00e3o do grande Carlos Drummond de Andrade que lhe escreve a seguinte mensagem:<\/em><\/p>\n<blockquote><p>Prezada Sonia Lins,<\/p>\n<p>Curti muito a Belo Horizonte do meu tempo atrav\u00e9s de Baticum, que fala tanto \u00e0 nossa sensibilidade mineira, resistente a todas as influ\u00eancias e transforma\u00e7\u00f5es cariocas. Quantas figuras e situa\u00e7\u00f5es apareceram de novo na trama que voc\u00ea teceu curiosamente no seu livro dif\u00edcil de classificar, instintivo, nost\u00e1lgico, ir\u00f4nico e cheio de emo\u00e7\u00e3o! A cidade ganhou mais um document\u00e1rio impressionista, com essas p\u00e1ginas que eu li com grande prazer.<\/p>\n<p>E pelo prazer da leitura, a\u00ed vai o abra\u00e7o de agradecimento de<\/p>\n<p>Carlos Drummond de Andrade<\/p><\/blockquote>\n<p><em>Assim aparece o elogio do poeta no livro de Marcel Souto Maior, Se \u00e9 para brincar eu tamb\u00e9m gosto \u2013, um perfil biogr\u00e1fico de Sonia Lins (Casa da Palavra, 2006).<\/em><\/p>\n<p><em>Logo em seguida a Baticum, Sonia concebe e executa com a mistura de t\u00e9cnicas como colagens, desenhos e pinturas o seu Livro da \u00e1rvore, um libelo precursor de consci\u00eancia e alerta ecol\u00f3gico sobre o desmatamento de \u00e1rvores de nossas florestas. \u00c9 um livro todo feito em pranchas soltas que permite ao leitor manusear quase que aleatoriamente o lirismo e as dram\u00e1ticas imagens de devasta\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p><em>Depois de Livro da \u00e1rvore suas cria\u00e7\u00f5es nos desconcertam mais e mais pelo seu esp\u00edrito irreverente e an\u00e1rquico: o guarda-chuva em forma de morcego que lhe surgiu ao ver um mendigo na chuva numa rua de Paris, o rolo de papel higi\u00eanico com imagens e mensagens impressas, a s\u00e9rie de 600 fotografias de umbigos humanos fotografados a seu pedido por Bel Pedrosa, a instala\u00e7\u00e3o Se \u00e9 para brincar eu tamb\u00e9m gosto exibida em 2002 no Museu Nacional de Belas Artes com apresenta\u00e7\u00e3o mais uma vez do cr\u00edtico ingl\u00eas Guy Brett, e seu derradeiro projeto intitulado Brasil passado a sujo, no Centro Cultural Correios em 2003 mostrado em diferentes suportes e ambientes com proposi\u00e7\u00f5es sensoriais, v\u00eddeos e objetos, proje\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p><em>E<\/em><em>ssa mescla de express\u00f5es em suportes t\u00e3o variados e mais os seus sete livros \u2013 Baticum (1978), Livro da \u00e1rvore (1984), Almanaque abre-te s\u00e9samo (1994), \u00c9s tudo (2000), Eu (2000), O tempo no tempo (2000) e Livro das dessabedorias (2003) \u2013 constituem o legado art\u00edstico e liter\u00e1rio de uma figura extraordin\u00e1ria e imprescind\u00edvel da arte brasileira, e mais um exemplo contundente do car\u00e1ter experimental e livre de nossas conquistas art\u00edsticas e culturais.<\/em><\/p>\n<p><em>Seu acervo de obras e de documentos \u00e9 extremamente significante no panorama de nossa arte contempor\u00e2nea. Nosso dever \u00e9 saber inseri-lo em nossas institui\u00e7\u00f5es, museus e centros de estudo de maneira urgente e irrevers\u00edvel.<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Luciano Figueiredo<br \/>\n<\/em><\/strong><strong><em>Rio de Janeiro | Agosto de 2014<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O artista pl\u00e1stico Luciano Figueiredo chegara de uma temporada em Londres, quando seu amigo Waly Salom\u00e3o lhe falou com entusiasmo sobre Sonia Lins. 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